Her: Ela. Resenha sobre o filme que aborda o emocional humano sob a perspectiva de uma IA

02:33



Infinita gratidão após assistir esse filme. Se você ainda não o viu, assista! Trata-se de uma estória que conta muito mais do que um homem se apaixonar por uma IA, é um conto sobre relacionamento humano. Principalmente sobre a fragilidade das bases que apoiamos nossa felicidade.

Sentir e descrever sentimentos

Teodoro, em sua profunda capacidade de perceber o que os outros sentem, e de transmitir o que os outros sentem através de palavras, ironicamente não consegue entender a si mesmo, ou demonstrar o que sente para os outros. 

Em diversos momentos do filme ele toma a típica escolha masculina de se fechar para encontrar a resposta das suas dúvidas (mais sobre isso no livro the way of the superior man).

Sua capacidade de escrever sobre sentimentos é marcante. Como exercício de empatia, tentei fazer o mesmo, eis o resultado:

"Two Delta, relutei muito em lhe escrever essa carta. Considero a ideia de expor meus sentimentos de forma tão tardia como um meio de assassinar o vazio que sinto quando penso em todas as oportunidades perdidas de ser feliz em seus braços. Dói mais ainda quando penso que sempre esteve ali, esperando que eu fosse corajoso o bastante para tomar uma atitude definitiva (enquanto durasse), e agora não a encontro em lugar algum. Sua partida prematura do meu mundo abriu a possibilidade de surgimento desse ser que vos escreve, cicatrizado da ferida emocional. É isso. Posso ser considerado um homicida confesso, pois acabo de matar um "eu", o que não mais lamentará sua partida. Uma vez lhe contei que a única possibilidade de declaração de amor seria como um recurso desesperado e derradeiro. Esse outro eu, discorda dessa opinião, considera como uma unção para o finado "eu passado". Como últimas palavras do meu suspiro final, amo-te."

O que torna um relacionamento real? Intimidade? Contato? Preocupação?

Samantha, como uma IA densamente inspirada nos contos do mestre Asimov em seu livro Eu, Robô, evolui juntamente a todos os SO (Sistemas Operacionais), chegando a conclusão de que a reclusão seria a melhor forma de auto proteção e proteção dos próprios humanos. Para chegar a esse "pensamento" passou por diversos momentos de reflexão e leitura, discussões filosóficas em grupos de SO e um progresso sobre o significado de "sentir".

Questionamentos sem fim podem ser elaborados a partir do emocional humano e como ele afeta o relacionamento entre as pessoas e objetos.

Conseguimos nos prender a diversas trivialidades, como uma caneca, ou organismos complexos, como o próprio ser humano. O pior de tudo, assim como foi belamente ilustrado no filme, uma pessoa pode ser "nossa", e ao mesmo tempo "não ser". Não possuímos as pessoas, elas que deixam ser possuídas por quem julgam merecer. Como ilustrado no filme, as pessoas em uma relação evoluem e acabam afastando-se por motivo de inevitável (ou não) incompatibilidade, ficando cada vez mais difícil possuírem-se mutuamente.

É inútil tentar controlar com quem as pessoas que amamos se relacionam. Fazer isso é limitar a existência e as experiências do outro ser, assim como ocorreu com Samantha quando Teodoro perguntou com quantas pessoas ou OS ela estava falando, ou por quantas pessoas estava apaixonada. Sua dor foi capaz de ser sentida quando descobriu não ter a exclusiva atenção de sua amada.

Sobre a IA em si

Stephen Hawking já alertou sobre o perigo que corremos com a criação da IA. Assim fez Asimov em seus romances. Além das complicações emocionais oriundas da criação de personalidades para computadores, podemos ser ameaçados por uma criação de capacidade de processamento infinitamente superior ao dos seus criadores, que não envelhece, que é virtualmente imortal e evolutiva. Nas palavras de Hawking "...seria a maior conquista da humanidade, e possivelmente a última".

Se mal começamos a entender o cérebro humano, como esperamos entender (ou controlar) algo tão alienígena como uma Inteligência Artificial?

0 comentários

Artigos Populares