Por que cristãos não devem pagar o dízimo

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Continuando a minha série de posts sobre o cristianismo, iniciada aqui, proponho com este texto uma melhor interpretação da Bíblia quanto esse assunto tão polêmico e alvo de críticas, o dízimo. O texto é originalmente de autoria do grupo Jesus Freaks (loucos por Jesus), dado os créditos, ressalvas e minha própria opinião sobre o tema no final do post.


1 “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro”. (Atos 8:20).

2 Existe uma crença forte, difundida entre as igrejas e templos criados pelo homem, de que devemos compartilhar com as instituições parte de nosso dinheiro. Os ditos “líderes” espirituais e autointitulados “pastores” do rebanho do Senhor afirmam que todos nós somos devedores perante Deus e nossos dízimos são como que uma “garantia de pagamento” do que devemos ao Senhor. Pagar o dízimo é o reconhecimento de que somos devedores e não proprietários. Ainda, em sua visão deturpada, afirmam que quando um crente não paga os seus dízimos, põe de manifesto o que existe em seu coração: uma pobreza interior.


3 Bem aventurada a pessoa que nunca ouviu essa pobreza espiritual manifestar-se quando amamos mais a nós mesmos do que a Deus, pela falta de amor à igreja, pela falta de amor ao ministério. Bem aventurada pois, provavelmente, nunca teve que ouvir a falácia de que a recusa de pagar parte do seu dinheiro para uma instituição ocorre quando a pessoa ama mais ao dinheiro do que a Deus, e que pagar o dízimo é um antídoto contra o amor ao dinheiro, uma forma de receber bênçãos espirituais. Que tipo de mente associa Deus e a Graça Divina com dinheiro? Basta frequentar um culto ou ir a uma missa e logo vemos bandejas ou sacolas pesadas sendo passadas e enchidas pois as pessoas acabam crendo que pagar o dízimo é contribuir para a realização de projetos missionários ou ainda pior: que pagar nossos dízimos é efetuar uma aplicação no Reino de Deus, que esta aplicação acumula recompensas eternas.

4 A maior das ignominias surge quando nos pedem para pagar por amor a Jesus Cristo, o maior “doador” de todos nós: caso você queira receber todas as bênçãos de Deus, deve pagar todos os seus dízimos. Afinal se quer viver na abundância de Deus, seja generoso com a obra do Senhor.

5 É óbvio que qualquer pessoa pode manipular as palavras de Deus para enganar os necessitados e aqueles que buscam compreensão, mas o que dizer de fatos jogados contra essa aberração criada por mentecaptos? Muitos, hoje, associam toda a forma de cristianismo a um bando de pessoas que dão parte de seu salário, muitas vezes já mirrado, para um aproveitador, e o pior é que muitos acham que isso ocorre porque Deus assim quer. Nada mais longe da verdade.

6 O trecho bíblico mais usado para justificar a cobrança do dízimo é o famoso Malaquias 3:8-10:

“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Com maldição sois amaldiçoados, por que me roubais, vós a nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimentos em minha casa e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma benção tal, que dela vos advenha a maior abastança.”

7 Sabemos que a Bíblia é a palavra de Deus, a autoridade máxima do Cristianismo, estudemos então estes versículos como deve ser feito – com mais atenção:

8 O ponto a entender é que antes de Jesus Cristo, Israel era governado por vários tipos de leis, as principais delas eram as Leis Morais, como “Não Matar”, “Não Roubar” e as Leis Cerimoniais, que regulamentavam o culto e adoração. A grande questão a entender é que a instrução do dízimo se refere sempre à leis cerimoniais. Tome sua Bíblia e leia atentamente os três primeiros de Malaquias e veja que o contexto inteiro está fundamentado na lei sacerdotal, ou seja, exatamente aquelas leis que caducaram na cruz pelo sacrifício de Jesus Cristo. Os mandamentos referentes a antiga adoração (o que inclui o dízimo) são para os judeus da antiga aliança apenas.

Acham isso surpreendente? Continuemos com nossa Bíblia então:

9 Deus conduziu o seu povo à Terra Prometida. Ali repartiu-lhe a terra, distribuindo cada parte a uma das doze tribos. A tribo dos Levitas deveria se dedicar ao serviço de Deus e, por isso, as demais tribos deveriam pagar o dízimo para sustentar o sacerdócio judaico, e este sacerdócio deveria ser mantido até a chegada do Messias.

10 Jesus Cristo ab-rogou os sacrifícios do Templo, o velho Templo foi rasgado, Jesus abriu o caminho. O sacerdócio levita necessário para o sacrifício de animais ou oferendas, instituído a partir de Aarão, estava anulado. Já não seriam necessárias nem as oferendas nem os holocaustos; não mais compraziam a Deus o sangue de touros nem de bezerros.

“Apenas um sacrifício perfeito é agora agradável ao Pai. (Malaquias 1,11).”

11 Por isso, o que fazem os pastores de qualquer denominação autointulada “cristã” exigindo o pagamento do dízimo, pressionando seus irmãos? NÃO é de Deus, mas um mandamento humano que, sem nenhum pudor, se aproveita dos seus irmãos mais fracos para tirar-lhes o dinheiro em nome de Deus.
“A religião se lhes tornou puro negócio” (1 Timóteo 6,5).

12 Continuando a leitura atenta a Malaquias 3 ou qualquer outra passagem sobre o dízimo, constatará que o contexto é sempre referente às instruções cerimoniais. Os dízimos estão sempre na companhia das ofertas alçadas e dos antigos sacrifícios dos Levitas e do Templo. Um cristão é tão obrigado a dar o dízimo hoje quanto a sacrificar um bode pelos seus pecados, pois a adoração hoje não é feita mais da antiga maneira, mas sim em “Espírito e Verdade”. Com o resgate feito por Jesus, o véu do Templo se rasgou de cima abaixo como conta a Bíblia, e neste instante a antiga lei cerimonial foi cravada na cruz e a antiga aliança deu lugar ao novo testamento de Deus. De tal forma é que não existe nenhum texto bíblico que instrua o povo de Deus a pagar dízimos após a ressurreição de Cristo.

13 Ademais, Malaquias é um livro com um público bem definido e completamente tirado do contexto por igrejas que servem primeiro ao Dinheiro antes de qualquer coisa. Vamos portanto entender que de fato são os ladrões mencionados em Malaquias 3:8-10. Este texto na verdade faz parte de um clamor que começa no capítulo 2, versículo 1 e vai até o verso 18 do capítulo 3. O primeiro passo, portanto, é ler toda a passagem.

14 Logo no começo podemos ver claramente para quem é endereçada a dura mensagem. E adivinhem só? Deus está bravo com os sacerdotes (de novo): “Agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós”. A mensagem é clara, quem está levando bronca são os sacerdotes, não o povo de Deus. Mesmo a passagem “vós a nação toda” em Malaquias 3:9 tem os sacerdotes como alvo, como que dizendo “vós, a nação de sacerdotes, todos estão roubando”, temos que lembrar que Deus, quando separou as tribos, reservou uma ao sacerdócio, e é essa nação que merecia o puxão de orelha. Ou seja, a Bíblia contém mensagens específicas para públicos e pessoas específicas. Não faz sentido, por exemplo, construir uma arca de madeira porque em Gênesis Deus ordena que Noé o faça. Da mesma forma que não é lógico que pessoas comuns se submetam às práticas sacerdotais. Não pedimos para um carteiro realizar uma cirurgia ou para um engenheiro revisar uma sinfonia. Por que aplicar para a pessoa comum os sermões criados para os sacerdotes hipócritas?

15 Assim, em Malaquias 3:8-10, Deus não ordena que os cristãos de hoje deem dinheiro aos pastores, mas ironicamente chama os sacerdotes de ladrões, ordenando que eles parem de roubar! E o que torna tudo isto ainda pior é afirmar que o objeto roubado era dinheiro, de forma que possam extorquir hoje, dinheiro dos crentes. O contexto era que o povo levava animais perfeitos para serem sacrificados na expiação de seus pecados e os sacerdotes os trocavam, oferecendo seus próprios animais defeituosos no lugar.

16 Na Bíblia o dízimo nunca está relacionado a dinheiro. Dízimo sempre está relacionado a comida, alimentos, produção agropecuária. Não que não houvesse dinheiro nos tempos bíblicos. Algumas taxas para o Templo só eram aceitas em forma de dinheiro (Êxodo 30:14-16 e 38:24-31). O dinheiro era utilizado para comprar sepulturas (Gêneses 23:15-16). O dinheiro era usado para comprar bois para serem oferecidos em sacrifícios (II Reis 23:33,35). Era utilizado para comprar imóveis (Jeremias 32:9-11). Para pagar salários (II Reis 22:4-7). Para fazer câmbios (Marcos 11:15,17). O próprio Jesus, inclusive, foi vendido por dinheiro.

17 Entretanto, Deus estabeleceu que somente as pessoas ligadas à produção agropecuária deveriam trazer dízimos. Uma vez que os dízimos eram oferecidos somente em forma de grãos, ovelhas e gado. Não há nenhuma citação bíblica de que os frutos do trabalho podiam ser cambiados ou compensados por ovelhas ou grãos a fim de se cumprir o procedimento dos dízimos.

18 Nos tempos antigos haviam variadas profissões e ocupações como hoje. Se o dízimo tivesse sido estabelecido sob a forma de dinheiro, ninguém teria dificuldade em adorar Deus dessa forma. Mas não foi assim que Deus quis. Dízimo na Bíblia é sinônimo de alimento, Ofertas podiam ser trazidas em forma de dinheiro (II Reis 22:4-7). Mas, quando o assunto era dízimo, somente ovelhas, bois, grãos e comida. Dinheiro nunca!

19 “Todos os dízimos do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do Senhor, são santos ao Senhor. No tocante a todos os dízimos de vacas e ovelhas, de tudo que passar debaixo da vara do pastor, o dízimo (O DÉCIMO) será santo ao Senhor. Não esquadrinhará entre bom e o ruim, nem o substituirá. Se de algum modo o substituir, ambos serão santos, e não podem ser resgatados”. Levítico 27:30-32.

20 Curiosamente, ainda, o dizimista não tinha que separar o PRIMEIRO para Deus, mas o DÉCIMO, o último. Os animais iam passando por debaixo da vara do pastor. O dízimo ou o décimo era separado e entregue ao Senhor. Quem tivesse nove ovelhas estava automaticamente isento do dízimo.

21 E o pior dos erros era acreditar que o dízimo era uma forma de pagamento ou oferta aos sacerdotes: os dízimos deveriam ser aproveitados pelos próprios dizimistas.

22 “Certamente darás os dízimos se todo o fruto das tuas sementes, que cada ano se recolher no campo. Perante o senhor teu Deus, no lugar que ele escolher para ali fazer habitar o seu nome. Comerei os dízimos do teu cereal, do teu vinho e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas, para que aprendas a temer o senhor teu Deus todos os dias. Mas se o caminho for longo demais, de modo que não os possa levar, por estar longe de ri o lugar que o Senhor teu Deus escolher para ali por o seu nome, quando o Senhor teu Deus te tiver abençoado, então os vende e leva o dinheiro na tua mão e vai até o lugar que o Senhor teu Deus escolher. Com esse dinheiro comprarás tudo o que deseja a tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho, ou bebida forte, ou qualquer outra coisa que te pedir a tua alma. Come-o ali perante o Senhor teu Deus, e alegra-te tu e a tua família.” Deuteronômio 14:22-29.

23 “Trareis a este lugar os vossos holocaustos e os vossos sacrifícios, os vossos dízimos e as vossas ofertas especiais, os vossos votos e as vossas ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas. Ali comereis na presença do Senhor vosso Deus e vos alegrareis com as vossas famílias por todo o bem que vos abençoar o Senhor vosso Deus. Então, ao lugar que escolher o Senhor vosso Deus [...] para ali trareis [...] vossos dízimos.” Deuteronômio 12:6,7,11.

24 Como lemos em Levítico ainda, a parte destinada aos sacerdotes era uma parte em alimento (Levítico 5:13). Nunca houve o pedido da entrega de dinheiro por Deus para seus sacerdotes como prova de amor ou para se quitar quaisquer dívidas morais. O dízimo em dinheiro é uma invenção do homem. Para que Deus iria querer dinheiro? Caso ficasse com fome e estivesse muito ocupado para criar um Big Mac e tivesse que pagar por um?

25 Os sacerdotes e pastores corruptos são, portanto, novidade do cristianismo de hoje. Na verdade as mais duras ressalvas da Bíblia são para eles e não para o cristão comum. Talvez este seja um dos motivos de Jesus ter se oposto aos líderes religiosos durante seu ministério na Terra.

26 Quanto ao argumento de que o dízimo de hoje é usado para sustentar o trabalho do ministério e da pregação: bem, Jesus nunca pediu que isso fosse feito. Muito pelo contrário a postura dos Cristãos primitivos era “De graça receberei e de graça dai” (Mateus, 10:8).

27 Os cristão primitivos nunca cobraram nada como desculpa para sustentar seus ministérios. Esse é o exemplo Bíblico (Mateus 10:7-10).

28 A mentira do dízimo se coloca ainda em oposição ao evangelho quando tomamos a consciência de que muitos cristãos humildes passam necessidade e deixam de comer para poder entregar dinheiro à igreja, na esperança de que assim poderão cumprir a vontade de Deus. Sofrem de fome e se atolam em dívidas enquanto seus líderes andam de carro importado e fazem viagens ao exterior.

29 Faça um exercício, peça para que seu pastor ou padre que dê para algum fiel qualquer, dentre toda a congregação, a chave dos seu carro e os documentos de posse. Você confiaria a uma pessoa que é incapaz de dar livremente a chave de um carro, a responsabilidade de lhe dar a chave para a vida eterna?

30 A superstição do dízimo foi criada para manter os vendilhões do templo de hoje e não condiz com a mensagem de liberdade do novo testamento. A crença de que seremos amaldiçoados se não dermos dez por cento de nossos salários, coloca o próprio sacrifício de Cristo em dúvida, como ato suficiente para livrar-nos de todo mal, e ainda condiciona nossa herança de uma vida plena à doação de parte de nosso salário – de nosso dinheiro – aos sacerdotes.

31 Os senhores que dirigem algum grupo religioso NÃO têm qualquer autoridade apostólica delegada por Deus para “exigir” de seus fiéis o cumprimento do “dízimo” judaico, como se eles fossem judeus, como se ainda tivessem que sustentar um sacerdócio que já caducou.

32 Mas Deus não é um comerciante, e na condição de pecadores nada tem a oferecer ao criador do Universo. A Graça da Salvação e da vida em abundância não vem em troca de nosso dinheiro humano, mas da iniciativa de Jesus Cristo em pagar toda a dívida moral que acumulamos com nossos erros.

Minha opinião pessoal

A igreja precisa de dinheiro para manter o seu funcionamento, suas obras de caridade e projetos assistenciais. Nada mais justo do que pedir aos fiéis que a frequentam essa ajuda de custo, desde que seja de forma organizada, com prestação de contas e que desvincule o sentido de obrigatoriedade ou que mencione dízimo, ou qualquer porcentagem como padrão. A ajuda deve ser dada de acordo com as condições de cada um e não como mais um tributo para o trabalhador.

Disclaimer:

Esse texto é profundamente inspirado no movimento Jesus Freaks (loucos por jesus), inclusive roubando o seu texto quase que na íntegra.  Esse grupo tem como proposta refletir sobre a Bíblia, contextualizando para o mundo moderno, incentivando a disseminação dos seus textos, inclusive não reclamando autoria para autor algum. Sou responsável apenas por algumas alterações de vocábulo, pois eles exageram algumas vezes no teor das palavras para se comunicar melhor com o seu público alvo, composto por jovens.

Alexandre Vieira

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